Depois da menopausa, a pergunta aparece em quase toda consulta: reposição hormonal faz mal para o coração?
Quando o assunto é reposição hormonal e trombose, a resposta mais honesta é que depende, e um dos fatores que mais pesam é algo que quase ninguém pergunta: de que forma o hormônio é usado.
Um estudo publicado no BMJ em 2026, com registros de saúde de mais de um milhão de mulheres dinamarquesas de 50 a 69 anos, mostrou que o comprimido e o adesivo não se comportam do mesmo jeito.
Reposição hormonal e trombose: o que o estudo dinamarquês mostrou
Os pesquisadores compararam mulheres que tiveram uma trombose venosa (um coágulo em uma veia, em geral das pernas, que pode chegar ao pulmão), um AVC causado por entupimento ou um infarto com mulheres da mesma idade que não tiveram nenhum desses eventos.
Depois, verificaram quem estava usando hormônio na época. Os dados vão de 2003 a 2021.
Entre as mulheres que usavam o hormônio em comprimido, comparadas com as que não usavam, o risco de trombose venosa era cerca de 60% maior, o de AVC por entupimento cerca de 30% maior e o de infarto cerca de 20% maior.
Entre as que usavam o hormônio pela pele, em adesivo ou gel, não houve aumento do risco de trombose venosa, de AVC nem de infarto.
A única exceção foi o infarto em um tipo específico de esquema pela pele, com combinação de hormônios em ciclos, mas com pouquíssimos casos, o que deixa esse dado frágil.
Quanto isso representa na vida real
Porcentagem assusta mais do que merece, então vale olhar os números absolutos. Sem usar hormônio, cerca de 16 em cada 10.000 mulheres dessa faixa de idade têm uma trombose venosa por ano.
Com o comprimido, o estudo estimou cerca de 9 casos a mais por 10.000 mulheres por ano, ou seja, uma trombose adicional para cada pouco mais de mil mulheres que usam por um ano.
Para AVC e infarto, o excesso estimado foi menor: um caso a mais para cada cerca de 1.600 e 3.800 mulheres que usam por um ano, respectivamente. O risco é real, mas pequeno em termos absolutos, e é por isso que a decisão depende do conjunto de cada mulher, e não de uma regra única.
A dose e o tempo de uso também contaram
No caso do comprimido de estradiol, o aumento do risco de trombose apareceu em qualquer dose.
Já o risco de AVC e de infarto se concentrou nas doses mais altas, acima de 1 mg por dia, usadas por mais de um ano, e cresceu com o tempo: depois de mais de cinco anos, o risco de AVC e o de infarto eram cerca de 80% maiores. Segundo o relato do estudo, com doses baixas, de até 1 mg por dia, não houve sinal de aumento de AVC nem de infarto.
Por que a forma de usar faz diferença
A explicação mais aceita passa pelo fígado.
O estrogênio que se engole passa primeiro por ele e pode alterar a produção de proteínas ligadas à coagulação do sangue.
O que é absorvido pela pele chega à circulação sem passar por esse primeiro filtro, o que reduz esse efeito.
O que esse estudo não prova
O estudo é observacional, ou seja, mostra associação e não prova causa e efeito. Os autores lembram que não tinham informações sobre peso e tabagismo, que as mulheres eram em sua maioria de um mesmo grupo étnico e que os dados refletem principalmente o estradiol, e não outros tipos de estrogênio.
O resultado do comprimido, porém, combina com uma análise de sete estudos randomizados citada pelos próprios autores, que também encontrou mais trombose com o hormônio por via oral.
Quem deve conversar com o médico antes de decidir
Isso não significa que toda mulher deva fazer reposição hormonal, nem que o adesivo seja isento de riscos. A decisão leva em conta a idade, o tempo desde a menopausa, os sintomas, o histórico pessoal e familiar de trombose, o risco cardiovascular e outras doenças. Quem já teve trombose, por exemplo, precisa de uma avaliação ainda mais cuidadosa.
A escolha da forma de uso é uma conversa para ter com o ginecologista e, quando existem fatores de risco para o coração, também com o cardiologista. Nessa conversa entram a pressão arterial, o colesterol, a glicemia e o histórico da família, pontos que ganham peso nessa fase, como explica o texto sobre menopausa e coração.
Dr. Leandro Serafim: avaliação do coração antes e durante a reposição hormonal
O Dr. Leandro Serafim é cardiologista com RQE e mais de 20 anos de experiência, atendendo em consulta particular no Itaigara, em Salvador.
Para a mulher que está pensando em começar a reposição hormonal, ou que já usa e quer entender o risco para o coração, a consulta avalia os fatores cardiovasculares e pode incluir eletrocardiograma e, quando houver indicação, ecocardiograma no mesmo local, realizados pelo próprio Dr. Leandro. O resultado é discutido junto com o ginecologista, para que a decisão considere o coração e os sintomas da menopausa ao mesmo tempo.
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Dúvidas frequentes sobre reposição hormonal e trombose
Reposição hormonal causa infarto? No estudo dinamarquês, o comprimido em dose alta, usado por mais de um ano, foi associado a mais infarto, e o risco crescia com o tempo de uso. Em doses baixas e com o hormônio pela pele, não houve sinal de aumento. Como o estudo é observacional, ele aponta associação e não prova causa.
O adesivo é totalmente seguro? Não. No estudo, ele não mostrou aumento de trombose, AVC ou infarto, mas isso não significa ausência de riscos. A decisão continua dependendo da idade, do histórico e de outras condições.
Quem usa comprimido deve trocar por adesivo? Essa decisão não deve ser tomada sozinha. Mudar o tipo de tratamento depende de uma avaliação individual com o médico, que considera os sintomas e o risco de cada mulher.
A reposição hormonal protege o coração? Ela não é indicada com o objetivo de proteger o coração. Seu uso principal é tratar os sintomas da menopausa quando há indicação, pesando benefícios e riscos de cada caso.
Quem já teve trombose pode fazer reposição hormonal? Esse histórico exige muito cuidado e uma avaliação especializada. A decisão deve ser tomada junto com o ginecologista e, quando necessário, com o cardiologista.






